Roberto Policiano

15 de jan. de 2007

O que estão fazendo com os idosos?

Seis horas e quarenta e cinco minutos da manhã. Desceu do ônibus. Enquanto se encaminhava para o prédio onde trabalhava, viu uma senhora de meia idade ajudando uma senhora idosa a entrar no mesmo ônibus que ele descera. Não sabe o por quê, mas aquela cena chamou-lhe a atenção. De repente uma pergunta povoou seus pensamentos – será que aquela senhora queria ir para onde estava sendo levada? Passou o dia pensando nisso. Essa pergunta levou-o a refletir em como os idosos são vistos por outros. E chegou à triste conclusão que, em raríssimas exceções, os idosos perdem a sua identidade. Chega-se a uma idade em que ninguém mais acredita no que a pessoa diz ou faz. E, quando eles se arriscam a dizer ou fazer alguma coisa, ou é tolice ou cômico. Lembra daquela festa que seu avô resolveu dançar? Todos (ou quase todos) riram! Por que é normal para os jovens ou adultos dançarem em uma festa, mas para os idosos é engraçado? Será que eles não têm mais esse direito? O que há de engraçado nisso? Quer ver outra situação onde todos ficam apavorados? Quando uma pessoa idosa revela que está apaixonada! Parece que o coitado (ou coitada) falou a coisa mais absurda do mundo! Por que? Será que é proibido para uma pessoa idosa se apaixonar? Será que, quando ficamos velhos, perdemos a capacidade de gostar de alguém? Talvez possamos ouvir alguém, depois de contar entre risos a assombrosa revelação, perguntar - Para quê? Com uma proposital e maliciosa ênfase na pergunta, terminada com um sorriso no canto da boca; um olhar de quem disse a coisa mais sabia do mundo; os ombros encolhidos; as duas mãos torcidas com as palmas voltadas para cima e os olhos correndo por todos os olhos presentes, como que os interrogando insistentemente, enquanto balança a cabeça de baixa para cima, com o queixo empinado para frente, que, traduzidos, querem dizer: “Hein? Hein? Hein?” E o que dizer quando o assunto é finanças? Um batalhão de benfeitores entra em ação para que seus queridos idosos sejam protegidos e recebam bondosas instruções para o melhor uso do seu dinheiro! E a proteção é tão insistente que os coitados perdem a liberdade de gastar sua aposentadoria ou pensão, chegando numa situação absurda de ter que pedir autorização para usar seu próprio dinheiro! Como que num passe de mágica, aqueles que nos orientaram durante um bom período de nossas vidas, tornam-se, para muitos, velhos tolos que não sabem a diferença entre a direita e a esquerda! Só nos resta torcer para não ficarmos velhos!

Roberto Policiano