Roberto Policiano

8 de mar. de 2010

Crise existencial



Sentou-se na cadeira da copa, estendeu a mão direita e alcançou uma das bananas expostas na fruteira que se encontrava no centro da mesa. Descascou parcialmente a fruta e deu a primeira mordida. Seus dedos sustentavam a fruta seminua diante de si e seus molares amassavam a porção da fruta levada à boca. Enquanto isso deu de refletir sobre a vida. Lembrou-se da seguinte frase que lera:

- Você é o que você come.
Imediatamente parou de mastigar e seus olhos se fixaram na fruta que sua mão, agora trêmula, sustentava.

- Então quer dizer que eu sou uma banana? pensou.
Imediatamente, como que solucionando um problema de vida ou morte, argumentou para si:
- Mas eu não como apenas bananas, eu como também... abacaxi! Espere, espere, eu também como goiaba. E também laranja. E mamão e...
Achou prudente escapar das espécies frutíferas e, raciocinando rápido, disse, sim, quase gritou, embora estivesse só:
- Também como repolho!
Imediatamente acrescentou:
- Abobrinha!
- Batata!
- Cenoura!
- Pepino!
Percebendo que a situação ficava cada vez mais crítica, lembrou que também era carnívoro e mudou novamente de espécies comestíveis. Num ímpeto, levantou-se abruptamente da cadeira a ponto de deixar a cair banana no chão e, apontando para o centro da mesa, gritou:
- Galinha!
- Pato!
- Marreco!
- Ganso!
- Peru!
Resolveu, por razões óbvias, abandonar a família dos bípedes e, migrando em direção à família dos quadrúpedes, subiu na cadeira e berrou:
- Porco!
Suando de desespero desceu da cadeira e, ao dar um passo em direção à escada, escorregou na banana que deixara cair e só não sofreu uma terrível queda porque projetou seu corpo para frente e, estirando os braços, agarrou firmemente o corrimão. Nesta posição humilhante balbuciou para si:
- O que sou eu, afinal?


Roberto Policiano

5 Comments:

At 12:42 AM, Blogger BCaroline said...

É... quem somos?
Quem sou eu? Não faço a mínima idéia. O que me deixa muitíssimo desconfortável se parar para pensar ou tentar resolver.

Talvez escrevera só para descontrair, mas parar parar pensar: "o que eu sou?"

Nothing...

 
At 10:07 AM, Anonymous Roberto Policiano said...

Bruna, se servir de consolo está dúvida não é só tua, é de todos. Abraços!

 
At 3:49 PM, Anonymous Luan said...

Para entendermos o que "somos", basta não parar para pensar, e sim andar para pensar. Entender que não somos, estamos sendo e vamos nos tornar, seja o que for -tanto faz- porco ou goiaba. Nós somos a ausência da rigidez e a deformação da plasticidade.

 
At 4:17 PM, Anonymous Ana said...

Penso que, às vezes, é preciso realmente parar, calar e ouvir as perguntas que a vida nos faz.Que os outros nos fazem. Descobrem-me pelas respostas que dou; descubro-me sempre que travo um luta comigo mesma para conseguir reponder.
Gostei do texto e da reflexão que ele coloca.

 
At 8:55 AM, Anonymous Roberto Policiano said...

Luan, seu comentário é 100% fenomenológico. É bem parecido com o que acredito, embora não exatamente, o que é outro fenômeno a se levar em consideração. Ana, sua percepção também não esta longe da minha. Digamos que o que penso está entre a tua idéia e a do Luan, o que abre novo fenômeno a ser investigado. Um grande abraço ao Luan e à Ana. Confesso a todos, no entanto, que, ao escrever o texto, só pretendi que fosse cômico e não levasse à reflexões tão sérias. E criou-se, aqui, um outro fenômeno. Como se percebe, então, a vida é fenomenal!

 

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