Roberto Policiano

28 de mar. de 2013

Pedra Fenomenológica




Na pedra
Eu sento,
Tu sentas,
Ele senta,
Senta quem quiser.
A pedra
Não sente
Só é.
Não sente
Culpada,
Tampouco
Inocente,
Apenas é.
Não sente ser SER,
É ente!

Roberto Policiano

22 de mar. de 2013

Lapidação



Dezessete de novembro de dois mil e doze, três horas e trinta minutos da madrugada. Acordou com uma pedra na cabeça. Não era uma pedra qualquer, mas, antes, uma pedra determinada, que parecia que sabia o que queria. Ela insistia em permanecer na cabeça de quem despertara naquela manhã e pedia, ou melhor, comandava, que se escrevesse a respeito de si. Como que para facilitar a escrita, a pequena rocha ora se mostrava, ora se escondia, a fim de direcionar a mente que deveria descrevê-la. Era como se dentro dela já houvesse uma pré-lapidação, que ela, ansiosa, tentava mostrar. Pareceu ao cérebro pensante que a pedra, não querendo ficar escondida entre outras pedras espalhadas no trajeto, lançava-se na ideia de quem despertara para assumir tal compromisso. Porém o corpo da mente desperta permanecia inerte no aconchego do cobertor naquela madrugada chuvosa. Mas quem dorme com uma pedra na cabeça? Assim, embora o corpo permanecesse estagnado, o cérebro começou a lapidar a pequena rocha, não como ele queria, mas conforme percebia na exibição da própria pedra, que literalmente se despia com a descarada intenção de sedução. E, gradativamente, aquele simples seixo deu lugar a uma gema interessante, sempre ao comando da pedra que, fenomenologicamente, se desvendava àquele a quem caiu a escolha para realizar o trabalho de lapidação. Enquanto o corpo permanecia adormecido e aconchegado à cama e devidamente agasalhado, o cérebro tirava lascas da pedra bruta com o mesmo cuidado de mãos treinadas que transformam diamantes brutos em belas e valiosas joias. Quando, por fim, a gema parecia quase completa, a mente ainda tentou fazer algumas aparas aqui e ali, mas, sob o comando da ex-pedra, que agora exibia seus contornos desejados, parou no ponto onde fora ordenada, restando-lhe a missão de nomear a obra de arte recém-formada. E, depois de uma reflexão sobre o trabalho a que foi conduzida naquela madrugada, batizou o resultado de “Pedra fenomenológica”.

Dezessete de novembro de dois mil e doze, oito horas e quarenta e três minutos. O corpo, agora plenamente desperto, digitava o texto acima sob o comando da mente que procurava transmitir às mãos os detalhes do seixo lapidado e cuidadosamente guardado para ser registrado nesta crônica.
 
Roberto Policiano

15 de mar. de 2013

Praça Alberto Caeiro



Domingo à tarde

Sol e brisa

Brisa e sol.

Praça repleta de pessoas,

Árvores e sombras.

Nas sombras bancos,

Nos bancos amigos,

Entre eles conversas e risos.

Nos gramados crianças.

No ar pipas a bailar.

No cercado de areias

Mães e bebês.

Brinquedos esparramados

Enfeitam e atrapalham.

Há cães que acompanham

E são acompanhados;

Correm, saltitam,

Toscanejam, embaralham-se.

Nos canteiros flores e folhagens.

A visão da praça me tocou

Pelo simples fato de ser praça

E, por ser tal,

Fez-me feliz.

Deixei-me levar

Pela concretude do lugar

Onde vi árvore na árvore;

Criança na criança;

Brinquedo no brinquedo;

Flor na flor;

Gramado no gramado...

Não, a praça não era o todo,

Mas apenas praça,

Exatamente isso.

Nela estava parte da natureza:

Pessoas;

Mães;

Bebês;

Areia;

Canteiro...

Meus olhos viam,

Meus ouvidos ouviam,

Mas meu cérebro não interpretava,

Pois não havia necessidade,

Visto que tudo e todos

Estavam ali,

Era só o que se precisava.

Fiquei apenas admirando,

Exercitando o “pensar-não pensando”,

Ou, talvez, o “não-pensar-pensando”,

Para, quem sabe, atingir

A “inocência de não pensar”.

Sei que, tampouco, devia escrever,

Mas quebrei a regra

E utilizei a linguagem.

Mundo que é mundo

Não cabe interpretação

Apenas observação

E satisfação

Com o fato tangível

De que domingo é domingo;

Sol é sol;

Brisa é brisa;

Praça é praça;

Sombra é sombra;

Banco é banco;

Pipa é pipa;

Cercado é cercado;

Conversa é conversa;

Riso é riso;

Amigo é amigo;

Poeta é poeta

E Alberto Caeiro

Sempre será

 Alberto Caeiro.

 

Roberto Policiano

 

8 de mar. de 2013

Descoberta



Três horas e trinta minutos da manhã e Izidelcio já estava “acordado, vestido, cabelo penteado e barba feita” como ele gosta de dizer. Girou a chave na fechadura da porta da sala bem devagar para não acordar dona Efigência e moveu o portão com todo cuidado a fim de não provocar nenhum ruído. Caminhou lentamente em direção à pracinha da pequena cidade. Aspirou profunda e demoradamente o ar da madrugada soltando-o em seguida com a mesma vagarosidade. Gostava de sentir a sensação de tontura provocada pelo excesso de oxigênio no cérebro. Ao chegar ao seu destino ocupou um banco de madeira debaixo de um ingazeiro centenário. Dali ele participaria de um de seus passatempos favorito – testemunhar o despertar de sua cidade natal. Toda segunda-feira feira é assim, e isso já por vários anos.
Alguns minutos de espera depois ele olhou à sua direita fixando seus olhos num ponto. Não demorou muito e a primeira luz doméstica se acendeu. Tal conhecimento corriqueiro provocou um leve sorriso em nosso observador. Mais uma vez Moreira foi o primeiro, ou melhor, o segundo cidadão a se levantar.
Sem alterar a direção da cabeça Izidelcio apenas mudou o foco de seu olhar para um lugar mais distante da rua e aguardou. Não muito tempo depois a segunda casa do lugar foi iluminada, sinal de que a rotina estava dentro de sua normalidade na casa da dona Emercinda.
Um giro de noventa graus e o ajuste preciso de seus olhos fez com que nosso madrugador voltasse sua atenção para o extremo da cidade a fim de assistir, quase que imediatamente, o acender da terceira lâmpada doméstica do lugarejo.
Depois de alguns minutos vários lares da cidadezinha estavam iluminados. Uma sensação de paz e contentamento tomou conta do ocupante do banco central da pequena praça que, mudando o corpo de posição, escorou bem as costas no encosto, inclinou a cabeça para trás, abriu os braços, descansando-os sobre a base do encosto do banco, fechou os olhos, e se preparou para a próxima experiência gozosa que, como ele conhecia muito bem, não demoraria a acontecer.
 Algum tempo depois nosso cidadão aflou as narinas e aspirou lentamente a fim de absorver o arome de café coado que pairava no ar ainda negro da noite, que bem devagar dava lugar à claridade que chegava. O buquê da bebida fresca penetrou muito mais profundo do que no corpo material daquele homem, pois vinha carregado de significados, fazendo com que ele se quedasse inebriado de êxtase. Izidelcio se comportou como um ilustre convidado sentado à mesa daquelas casas e sorvendo com aquelas famílias um delicioso café numa espécie de desjejum comunitário. O impacto foi tão profundo que suas pupilas gustativas entraram em ação e encheu a boca do convidado de água, que foi engolida com delicadeza, como se fosse uma porção quente da bebida estimulante. A sensação foi tão prazerosa que as expressões daquele homem retrataram com exatidão a ‘cara’ da felicidade.
Menos de uma hora depois Izidelcio arrastou todos os barulhos que ouvia para o ‘pano de fundo’ de sua percepção auditiva e se preparou para captar os sons que mais lhe interessava naquele momento. Como que cronometrado numa precisão indescritível, os ouvidos de nosso espectador detectaram, ainda longe, os primeiros passos abrindo a jornada da vida dos moradores do local. Um novo sorriso enfeitou a face do madrugador, que reconheceu as passadas do velho Damasceno que, embora não seja o primeiro a se levantar, é, na maioria das vezes, o primeiro a ganhar as ruas da cidade.
Logo várias passadas são ouvidas em vários pontos do local e se entrecruzando ou se distanciando, conforme os donos ou donas delas. Izidelcio conhece cada um desses passos, sabe de onde vem e para onde se dirige. Alguns são apressados, outros moderados. Há caminhantes que batem os pés firmes no solo, ao passo que outros dão a impressão de não tocá-lo, pois caminham como se estivessem flutuando. Nosso espectador, deixando-se levar por aqueles sons, viajou através do tempo e viu a si próprio nos trajetos que já percorrera até chegar onde está. Lembrou-se de que, naquela época, corria, como a maioria, atrás de seus planos e, por esta razão, suas atenções sempre estavam voltadas para o futuro. Ele descobriu muitos anos depois de uma conversa que tivera com Manolo, Frits, Geraldo, Morais Galdino e outros amigos de infância, que ele não era o único a viver ‘com o corpo no presente e a cabeça no futuro’, como eles costumavam dizer. Alguns deles, desapontados com o resultado de suas vidas, tentavam desesperadamente voltar ao passado e arrancar de lá a tal felicidade que, embora procurada com determinação, consegui se esconder todo aquele tempo. Outros, que ainda não davam por encerrada suas jornadas, discutiam com os primeiros e insistiam que eles deveriam se concentrar à frente, argumentando que alvos e perspectivas eram necessários a todos, pois serviam como motores para impulsionar nossas vidas, imprimindo nelas sentido. Já um terceiro grupo condenava os dois primeiros argumentando que a felicidade não está nem no passado, que não pode voltar mais, nem no futuro, que é incontrolável e desconhecido, mas no presente, no aqui e agora, faziam questão de frisar. ‘Nossas mentes’, arguiam eles, ‘tem que estar onde nosso corpo está’, e apontavam a harmonia de uma orquestra para ilustrar o que achavam ser um argumento irrefutável. E uma acalorada discussão nasceu com cada um dos três grupos defendendo seus argumentos. Izidelcio, que não tomara partido em nenhum dos lados, por reconhecer que não sabia a resposta certa, ouviu atentamente os argumentos de cada grupo sem fazer qualquer julgamento. Ficou confuso com o falatório e, reconheceu que ‘saiu do jeito que entrou’, com exceção dos conhaques que tomara enquanto assistia aquele debate acalorado.
Nunca mais havia pensado no assunto, mesmo porque - acreditava ele - não achava que seria importante fazê-lo. No entanto, na quietude daquele momento, descobriu uma resposta que fazia sentido, tendo, como resultado, a formação de um largo sorriso que, se não movimentou todos, mexeu com a maioria dos músculos de sua face, enquanto sua mão direita fechou-se automaticamente e socou com seu lado externo sua coxa direita, ao mesmo tempo em que balbuciou a seguinte expressão:
- É isso!

Depois, admirado com tais reações involuntárias, ajeitou novamente o corpo contra o encosto do banco que ocupava e experimentou um relaxamento nunca conseguido por ele antes e, tendo a convicção de ter descoberto um grande segredo, sorriu de modo audível num crescente até alcançar uma gargalhada que pareceu brotar da parte mais recôndita de suas entranhas, culminando com uma imensa sensação de bem-estar que é impossível ser descrita em palavras.
A claridade já estava tomando conta do dia quando o aroma do pão assado alcançou as narinas de Izidelcio. Dando por encerrada sua atividade matinal, ele se levantou tranquilo e se dirigiu à padaria.
Quando dona Efigência acordou o café estava acabando de coar e a mesa já estava posta.
Mas que segredo foi este, afinal? Embora Izidelcio preferisse não alardear sua descoberta, porque, argumenta ele, é avesso a debates, resolveu contar, não antes de muita insistência de minha parte. Usando as palavras dele:
‘É como se aquela falação todas de meus amigos ficasse na minha cabeça trabalhando, trabalhando e trabalhando todo aquele tempo até chegar numa resposta. Eu nem não sou responsável por isso, pois eu nem não sabia que estava pensando nestas coisas difíceis de entender. Minha cabeça ficou pensando sozinha em tudo aquilo e só me avisou do resultado e, como eu gostei da conclusão que ela chegou, acho que é certo’.
-          E que conclusão chegou a sua cabeça?
-         Bem, ela chegou à conclusão de que a felicidade não está só no passado, nem só no presente, ou só no futuro, mas está nos três lugares. Eu posso, por exemplo, visitar o passado, claro que posso! Ele está registrado na minha cabeça e é possível voltar a ele quantas vezes eu quiser. Também - e quando eu descobri isso eu fiquei abismado - eu posso visitar o futuro. Na primeira vez que eu pensei isso eu até achei uma ideia boba. Como é que alguém visita uma coisa que ainda não aconteceu? Achei até que estava ficando doido! Mas aquele pensamento ficou martelando na minha cabeça. Então meu miolo, querendo provar que isso é possível sim, fez com que eu me lembrasse do rancho que eu mandei construir lá na minha chácara. Quando eu comprei o lugar era só um terreno. Aí eu decidi construir o rancho. Fiquei imaginando como é que eu queria que ele ficasse e fiz um desenho no papel. Fui até a casa do Pereira e pedi pra ele construir do jeito que estava no desenho. Saiu igualzinho. Então eu percebi que, antes do rancho existir de verdade, eu o visitei com a minha cabeça, de modo que eu posso sim visitar o futuro, como não? Pois bem, hoje, se eu quiser, eu posso voltar trinta anos e sentir a felicidade que eu tive lá atrás, ou posso imaginar algo que vai acontecer dez anos no futuro e antecipar uma felicidade minha. Visto que eu posso controlar minhas ideias hoje, consigo sentir essa felicidade agora, neste instante, se assim eu desejar. Além do mais, posso concentrar minha atenção no momento atual e sentir a felicidade de algo bom que está acontecendo aqui e agora. Portanto, meu amigo, a felicidade está no passado, no presente e no futuro à espera de nossa visita, foi isso o que a minha cabeça descobriu sozinha.
Como as palavras de Izildecio foram convincentes para mim, nada tenho a acrescentar.
 
Roberto Policiano

1 de mar. de 2013

Epílogo



Ouve-se o som da moto-serra

E o baque do tronco no chão.

Foi-se a última árvore.

A floresta virou savana

E, logo após, deserto.

Já não há mais geleiras.

O mar avançou nos continentes

Engolindo várias ilhas.

Novas Atlântidas surgiram.

As redes de arrasto,

Fazendo jus ao nome,

Esvaziaram as águas

E entupiram os frízeres.

O solo, de tão seco, virou pó

E rodopia no vento que

Sopra em todas as direções.

A temperatura do Planeta

Sobe vertiginosamente

Exigindo que as usinas

Nucleares funcionem

Na capacidade máxima.

Pouquíssimos espécimes

Teimam em continuar.

Os humanos, entretidos

Com as quinquilharias

Tecnológicas, aceitam

Passivamente os discursos

Inflamados de que tudo

Está sob controle

E não ouvem,

Ou não querem ouvir,

Os últimos suspiros

Do Planeta Terra.

Roberto Policiano